Decotelli se olhou no espelho


A imprensa explorou, pontualmente, as notícias sobre as “licenças poéticas” do currículo de Carlos Alberto Decotelli. Não se perdeu tempo nas redações, encontraram pessoas, checaram dados, localizaram empresas, meteram bronca no escrutínio. A esquerda foi de “Bolsonaro vai mudar, ele está colocando um homem negro e especialista no cargo” a “Decotelli devia ser processado por falsidade ideológica”.


Mas Salles, Vélez, Damares, Weintraub, Witzel e até Dilma praticaram uma licença poética de leve no currículo, e nenhum deles foi exposto como Decotelli.


Foi aí que Decotelli entrou em casa, tirou a gravata, os sapatos, e foi ao banheiro. E lá, se olhou no espelho e se viu.


A pergunta é:


Ele entendeu o que viu?


Decotelli se viu no espelho


Muito se falou do currículo de Decotelli, mais ainda se gastou com energia pra falar dele, mas pouco da sua origem, ou quem era Decotelli antes de ser governo.


A família Decotelli é tradicional na igreja batista brasileira.


Frequentadores da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro, influenciam decisões da denominação, as práticas comunitárias, a cultura musical, corais, orquestras e música sacra.


Há na família músicos, cantores, regentes. O próprio Decotelli fez Música Sacra no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, na Tijuca, Zona Norte do Rio.


Os Decotelli são um exemplo de uma família tradicional negra protestante, de igreja histórica, no Rio.


A igreja batista, historicamente conectada com governos autoritários, apoiadores da ditadura, e que no período de Vilson do Amaral Fanini, um tipo de “Sarney” dos batistas, a Convenção Batista Brasileira era apoiadora do governo militar, nas décadas de 1960 e 1970, e propagavam um evangelho da “obediência" e da adequação.


Decotelli tem 70 anos.

Desde criança, frequenta a Primeira Batista, vulgo PIB. Igreja gigante, de arquitetura neoclássica, construída para ser um monumento glorioso dos missionários americanos, que ergueram o prédio, no bairro do Estácio.


Se quando eu frequentei a PIB (1992-1999) era ainda uma igreja preconceituosa, conservadora, de valores inflexíveis, imagina há 60 anos atrás, quando Decotelli era ainda uma criança.


A teologia protestante é construída para que novas manifestações religiosas pudessem ser aceitas, mas isso também é um fenômeno associado a colonização das Américas e ao nascimento do capitalismo.


Ocorre que essa teologia, ou é alemã, ou é americana. Em todos os casos, brasileira e africana, nunca. E há uma mesma forma através da qual ela se estabelece no Brasil, na América Latina e na África: anulando o sujeito local, sua cultura, seus valores, demonizando suas crenças locais, sua fé, seus deuses e entidades, NEOCOLONIZANDO cultural e teologicamente tais pessoas, pra que elas, uma vez assimiladas, pensem como eles, consumam como eles, reproduzam democracias aliadas às deles, para que eles sejam fortalecidos por terem mais pessoas apoiando o que querem e dizem.


Ao entrar numa igreja protestante tradicional, em qualquer lugar do Brasil, você adere a um cristianismo pensado pelo europeu e norte americano brancos.


Você abandona, no seu batismo, suas relações com sua brasilidade. Você nega a beleza e a pureza das suas crenças. Você demoniza sua cultura, a si mesmo, e aí entra o que chamamos de negacionismo cultural, um componente relevante do eugenismo.


Há igrejas adventistas que não permitem que mulheres negras usem turbantes no Brasil. No Rio e em São Paulo, já foram publicadas notícias de alunos que foram repreendidos nas escolas adventistas por usarem seu cabelo “black power”.

Vinícius Santos Dias, 16 anos, foi proibido de fazer rematrícula no Colégio Adventista onde estudava há 7 anos, por causa do seu cabelo. O caso é de 2015.

O samba, a cuíca, o cavaco, os atabaques, todos os elementos genuinamente brasileiros, entraram em ALUMAS igrejas depois de três décadas de conflitos internos, mágoas causadas em pessoas bem intencionadas, interessadas em fazer um protestantismo brasileiro - se isso fosse possível.


Eu toquei bateria na igreja batista. Na adventista também. E foram em tempos onde, pasme, esse instrumento era considerado UM INSTRUMENTO DO DIABO. Olha, eu não tenho paciência pra sequer lembrar das coisas que passei e ouvi não. É muita ignorância e manipulação por parte dos pastores.


A bateria veio do diabo. E o dinheiro, veio de quem?


Mas deixe de dar o dízimo, e logo vão ligar pra sua casa, PARA COBRAR. Não me disseram. Já me ligaram. Já ligaram para minha família. A “obra de Deus” precisa do dinheiro do diabo para existir, porque esse Deus é um aleijado, criou o mundo, mas não consegue fazer a própria obra sem dinheiro criado pelo seu arqui-inimigo Satanás. Que bosta.


Uma vez, na Igreja Batista Suburbana, o pastor Aderbal me chamou pra tocar bateria. Eu tinha ganho uma, bem ruinzinha, chamava Taiko, era feita de fibra, dessas que começa a descascar e sair farpa na mão, os pratos eram de latão, ficaram oxidados, velhos, em dois meses. O som não era dos melhores e eu, iniciante, não era uma referência naquela igreja batista no bairro de Cavalcante no ano de 1988.


Ele tinha me chamado pra tocar no culto da quarta-feira. Fiquei feliz. Pediu pra eu levar a bateria. Caramba, eu fiquei muito feliz com aquilo. Um menino de 13 anos, reconhecido pelo pastor.


Levei sozinho a bateria pelas ruas. Bumbo, caixa, ferragens, cansei. Montei tudo. Esperei o culto. E no fim do culto, ele olhou pra mim e disse:


-Agora o Anderson, filho da Madalena, vai encerrar o culto com uma última música, o poslúdio. E fez o gesto pra que eu fosse lá na frente da igreja, onde estava montada a Taiko.


Não lembro. Toquei qualquer coisa. E finalizei com um prato.


A igreja me olhando, em silêncio.

Daí o pastor pega o microfone e diz:


“É isso que vocês querem na igreja? Isso parece um som vindo do Senhor para vocês? Pois se querem, terão. Mas sejam sinceros: sentiram Deus falando com vocês ao ouvir esses toques, essas batidas? Isso alimenta a alma de vocês?”


Ele pertencia a segunda geração de pastores brasileiros batistas, formado pelos próprios americanos. Se você acha que a influência de americanos no Brasil é na Lava Jato, amigo, trago más notícias. Os americanos formaram os primeiros pastores brasileiros. E Aderbal era todinho um texano. E tínhamos nele uma referência de vida, afinal, ele era o “homem de Deus” escolhido naquela comunidade.


No ruim, no ruim, pelo menos ele tinha estudado né. Hoje, os pastores brasileiros são formados pelo Malafaia, depois de 10 minutos de curso online.


Mas durante toda minha vida na igreja, até o dia que saí, depois de tocar por quase 5 anos numa igreja como baterista, e considerado um dos melhores músicos da igreja batista, isso já em 2006, vendo uma multidão e pessoas cantando, dançando, ao som do groove ou do samba, aquilo já nem fazia mais sentido algum pra mim, mas até o dia em que saí, algo meu foi combatido pela igreja.


A última coisa que queriam que eu negasse era minha origem e minha condição de pobre, suburbano e favelado, E QUE ISSO ME LEVASSE A QUESTIONAR o sistema, o capitalismo e a própria igreja, culminando no discurso que Henrique Vieira, Ronilso Pacheco Das André e Eliad, teólogos negros, divulgam hoje: que Jesus era pobre, preto, favelado e a Bíblia é um livro africano.


Então, eu não saí da igreja. Mas fui atrás de Jesus, no morro. E ao não me dobrar a igreja, me encontrei.


Volta pro Decotelli.

Ele não é isso.

Ele é o inverso. Ele pertence ao grupo de pessoas negras que não quis deixar a igreja para assumir posição crítica. Ele é de uma família onde há negros e brancos, e todos cantam como europeus, pensam como europeus, falam brankko, como europeus, estudam e pensam como europeus, condenam outros negros, de fora da comunhão protestante, chamam Orixá de demônio, dizem que os negros de fora da igreja não são exemplos, e fazem isso, saiba, não publicamente, mas em suas reuniões familiares, no Natal, na Páscoa, nos cultos dominicais, as conversas depois do culto. Tá aí mais uma coisa que ninguém me disse. Eu vi. De perto.


Decotelli é vítima e vilão dele mesmo. Sou contra essas leituras desesperadas e extremistas de dizer que ele se percebeu negro, como o Dodô de Azevedo disse na Folha, ao justificar o peso racista sobre o currículo do agora ex-ministro, porque dá impressão, falsa, que o Decotelli era um negro oprimido desde sempre, sem meios de se proteger, se defender ou existir, e agora, tem-se vítima.


Decotelli abrigou-se num ninho de brancos. A igreja, E AS RELAÇÕES QUE ELA DÁ. E ele fez isso porque É ASSIM QUE A IGREJA PROTESTANTE OPERA. Cria círculos, bolhas, facções. Seja você negro, branco, indígena, há um “Deus Maior” protegendo “seu povo”, e lá dentro não vale Abdias, Silvio, Lélia, Davis, Malcolm e só a parte açucarada de Luther King vale.


Que era batista, inclusive. Mas desceu a lenha nos batistas brancos. Por isso mataram o cara. Batistas tinham poder político.


Ainda hoje, tem. Bolsonaro foi “abençoado" na Igreja Batista Atitude, igreja da Michelle. Decotelli é da PIB. Trump é presbiteriano, meio que dá na mesma, Obama era batista, Kennedy, Reagan, Nixon, os dois Bush, Abraham Lincoln, também.


De Rosa Parks a Eduardo Bolsonaro. Tudo batista. E pensam o mundo de forma muito diversa.


Eu, e vários trutas citados aí, somos reformistas, progressistas, tentamos resolver o protestantismo doente, com botox, com gambiarras, fica um cadáver estranho, mas brasileiro e negro. Quem sabe um dia, a igreja acabe, esse é meu sonho, e o de Jesus também.


Mas Decotelli, definitivamente, não está nesse grupo. Ele CONSCIENTEMENTE teve 70 anos pra desenvolver sua vida, e o fez ancorado DENTRO da Casa Grande Protestante. E teve poder dentro dela. Ele e sua família são medalhões da igreja mais que centenária no Brasil. Eles tem poder político interno, podem exercer para oprimir pessoas, limitar movimentos, discursos, calar e silenciar vozes dentro da igreja, e ai de mim se estivesse escrevendo isso como membro da Primeira Igreja.


Tenho amigos, negros, batistas, que não apenas elegeram Bolsonaro, mas que fazem campanha diária por ele. São de famílias negras que encontraram no embranquecimento protestante um lugar de poder. Se o fizeram pra sobreviver, acho que sim, mas se fizeram justiça depois que sobreviveram?


Não.


Reproduziram o ódio e o racismo que aprenderam com o branco.


Decotelli se fez surdo para o grande número de intelectuais e teólogos negros que insistiram que o Brasil e a igreja deveria rever valores. Tal é sua surdez, que ele não pensou duas vezes em aceitar a indicação para trabalhar com Bolsonaro, um homem que reiteradas vezes atentou contra minorias negras. Se ele tivesse o mínimo de vontade crítica, porque espírito acredito que tenha, mas se tivesse VONTADE, jamais tinha aceito o convite. Porque não tem gente inocente ao lado de Bolsonaro. Quem dá cobertura a safado, é porque é safado também, resume Bezerra da Silva.


Decotelli é vítima de uma teologia racista. É vítima de uma sociedade racista. É vítima de uma academia que obriga que as pessoas tenham que produzir de forma insana, e racista.


Mas Decotelli, depois de um determinado ponto, QUIS. Ele fruiu o privilégio, ele deu aula sim na FGV, ele entrou em lugares onde negros não entram. Mas nada disso o fez mudar o discurso. E depois de ser humilhado publicamente, ele se olhou no espelho. E viu que ex-oficial da marinha, acadêmico, protestante, coach, consultor, professor não lhe define. Ele viu que negro o define.


Decotelli se olhou, portanto, no espelho. Resta saber se ele entendeu o que viu, ou se vai voltar para sua bolha de proteção.


E quer saber meu palpite?


É. Isso mesmo.

Por baixo da pele, meu amigo, o ser humano é igual. O maior mal do racismo é fazer pensar que negros serão santos ou heróis em lugares de poder. Não. Somos tão iguais, tão iguais, que até nas merdas, somos iguais.


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