Cidadão, não. Eu não sou tuas nega.

Pense comigo. A mulher que disse ao fiscal da prefeitura do Rio:


“cidadão não,

ENGENHEIRO CIVIL,

e melhor que você”,

estava também reagindo de forma racista. Veja, todo mundo que já foi abordado por policial na rua, no morro especificamente, na periferia, sabe de uma coisa:

“cidadão” é um termo usado de forma pejorativa, apesar de na sua raiz não ser, muito pelo contrário, cidadania é a plenitude do exercício dos direitos. Mas quando um policial se dirige a uma pessoa negra na periferia, a PRIMEIRA coisa que ele diz é:

-CIDADÃO, encosta. CIDADÃO, mão na cabeça.

Quando você tenta explicar, a resposta vem ao cubo:

-CIDADÃO, calado. Aqui eu sou a autoridade.

E se insistir, leva pau.

Se você nunca tomou dura na saída do morro, essa cena era importante trazer pra você, porque você provavelmente não está levando isso em consideração. Policiais utilizam a palavra de forma pejorativa e genérica, e com desprezo, para exatamente ter o efeito contrário que a palavra tem. Eles chamam “cidadão” para tirar sua identidade, te colocar num não-lugar, te tratar como uma não-pessoa. Não te chamam pelo nome. Sr. Fulano, senhor, senhora. Não pergunta seu nome, porque não interessa. Se você é pobre, preto e favelado, eles vão atacar no teu psicológico.

Ele ali é o policial. O sargento, tenente e o seu comandante. Até o praça é melhor que você.

Porque há uma disputa sobre quem é melhor que você.

Nós vivemos numa sociedade doente pela carteirada. Quem é melhor que quem. Não criamos um povo para sermos iguais, mas para termos uma carteirada quente pra dar.

O Brasil está doente e fracassado. República Federativa do “Você sabe com quem está falando?”. Na bandeira, ao invés de ordem e progresso, deveria estar essa pergunta.

Então essa expressão é sim mal vista. E claro, nossa heroína sabe muito bem disso, pois ela é uma das pessoas que “lutou na vida” pra não ser abordada por fiscal ou polícia.

E sabe porquê? Procure pesquisar:

White trash.

Os brancos pobres.

Muitos, chegam a ser uma classe média, mas vieram da pobreza. Muitos dividiram espaço na periferia ou subúrbio com negros, e melhoraram de vida, e agora não são mais vizinhos dos negros, são “engenheiros civis”. Meu marido é “TI”. Moramos na Barra. Viemos de Ramos, mas agora somos membros da Sara Nossa Terra no Recreio. Eles são melhores. Melhores que você.

Os brancos pobres fazem tudo que podem para manter um único status:

serem brancos.

Eles se veem nos jornais, revistas e filmes. E podem naturalmente acreditar que são como os brancos ricos, pois são brancos também. Representatividade cultural e estética. Mas eles não são. Não foram criados em Ipanema, não frequentaram as escolas particulares, pegaram trem a vida toda. Mas eles olham pra frente. E na sua frente, estão os brancos que controlam o mundo. Trump, Bolsonaro. Eventualmente, um Hitler. Eles querem ser mais brancos. E nunca, jamais, querem ser tratados como os negros. Brancos pobres acreditam que mesmo que sejam miseráveis, tem algo de melhor: a pele.

E por mais que o capitalismo aniquile isso, eles preferem votar em candidatos brancos, que exaltam a branquitude e os valores brancos, porque no fundo O BRANCO POBRE É RACISTA E NÃO QUER SE PARECER EM NADA COM UM NEGRO,

MESMO QUE OCUPE O MESMÍSSIMO LUGAR SÓCIO-ECONÔMICO QUE ELE.

E ao se dirigir a mim, NUNCA me chame como chama os pretos.

Cidadão não,

Engenheiro civil. Branco que venceu. Melhor que os pretos.

Melhor que você.

Importante falar disso depois do que aconteceu ontem em São Paulo, quando um policial pisou no pescoço de uma mulher negra. Porque é dessa forma que mulheres negras são tratadas na periferia. É dessa forma que pessoas negras são tratadas TODO O TEMPO nas periferias.

“Cidadão, deita.” E a mulher do engenheiro civil queria deixar nítido que ela não era uma negra, uma pobre.

Cidadão,

não.

É como se ela dissesse:

Eu não sou essas pessoas negras que você pisa em cima. Eu não sou suas negras.

Eu não sou negra. Eu não sou tuas nega.

O racismo. Ele está em tudo,

no Brasil

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