Cassiane mudou um clipe. E as crentes continuam apanhando.


Bater na Cassiane muda uma cena de minutos. Mas não uma realidade. Porque bater na Cassiane não é bater na máquina por trás dela. Portanto, bater na Cassiane não resolve, embora você pense que sim.

Aliás, eu estou usando o verbo bater, de propósito. No fundo, ninguém deve bater em ninguém, por motivos de: crime. Mas ANTES de ser crime, precisamos estar centrados pra resolver as coisas sem partir pro pau, muitas vezes um pau covarde, que quebra um idoso, uma criança, uma mulher, um trans, uma pessoa negra. Bolsonaristas gostam de bater. De bater e de ameaçar com arma. Para eles foram criadas as políticas que permitiram que 140 mil novas armas de fogo fossem registradas no Brasil em 2020. É um PROJETO deste governo armar a população, e sabemos: a indústria de armas é uma indústria como a de bebidas, de roupas, etc, precisa expandir e vender. Como é nos Estados Unidos, agora é no Brasil.

O discurso da intolerância e da violência é o motor do bolsonarismo, sem o qual ele não existe. E instituições como a igreja podem ser úteis em validar o discurso da intolerância, mesmo que não o façam diretamente, mas indiretamente, educando comunidades periféricas e pobres todos os domingos que o homem é o chefe da casa e “cabeça da esposa”, que lhe deve, segundo essa visão teológica sexista, submissão e obediência, caso contrário pode ser disciplinada. A mulher evangélica, neopentecostal, periférica e negra conhece bem o cotidiano da violência doméstica. Eu cresci num lar onde a violência foi praticada, estamos falando uma família evangélica.

Mulheres evangélicas são, antes de evangélicas, brasileiras, e nessa condição estão dentro das estatísticas de violência doméstica levantadas anualmente pelas secretarias de segurança e institutos de defesa da mulher. E evangélica apanha e sofre como QUALQUER OUTRA MULHER. Mas são reprimidas em suas comunidades em denunciar os agressores, pois são diáconos, presbíteros, missionários, pastores. Muitas vezes parte da renda da família vem da prática religiosa. Ou se é membresia, ela não quer expor sua família ao que é considerado uma vergonha, um fracasso familiar, um lar em pecado, em distúrbio, em desordem, um lar que não pode ser um exemplo para os demais, que não pode gerar filhos saudáveis perante ‘o Senhor’, cujos membros não podem assumir cargos na igreja (com exceção do agressor, pois o sistema o favorece), e a mulher é desgraçadamente subjugada a preceitos teológicos que desvirtuam a base bíblica de submissão ou vida conjugal, infantilizando a mulher e fazendo-a refém na própria relação que por livre vontade estabeleceu. Quer dizer, considerando que tenha feito por livre vontade.

Mas a igreja evangélica brasileira é esse terreno onde violências ocorrem e nada acontece. Feijoada.

A MK Publicitá é a gravadora de Cassiane.

Uma das sócias é Marina de Oliveira, do Faça um Teste.

Crente da antiga pegou a referência.

Marina de Oliveira não nasceu ontem, meio dia, como disse uma vez uma amiga.

Ela tá nesse mercado da música de igreja desde, pelo menos, 1986.

Vocês não eram nascidos, e Marina tava fazendo LP e lançando em estádio lotado em Niterói pro mundo crente.

Marina é tipo lenda, a Xuxa dos crente véio.

Filha de

Arolde de Oliveira.

O responsável, segundo a própria Marina, pelo seu “paitrocínio”. Arolde de Oliveira. Hoje senador. A vida toda por partidos conservadores, ex-militar do exército, batista, deve ter estado presente na ceia do Jesus que disse ‘bandido bom é bandido morto’.

Arolde sempre andou colado com o poder. Tem uma rádio, a 93 FM, no Rio, que na década de 1990 foi a grande propagadora das músicas da gravadora, onde a filha era a estrela. Arolde fez poder e dinheiro por todo lado que deu.

Tá sendo investigado no inquérito das Fake News, mas ninguém na igreja liga pra isso. É um ‘homem de Deus’ exemplar.

Eles apoiaram Bolsonaro. Digo mais: desde sempre. Lá, desde Faça um Teste, eles deviam apoiar o cara, e eu tendo sonhos eróticos com Marina. Que inclusive, se não me engano, foi casada com um filho do Brizola. Que tinha programa no rádio. E apoiaram Garotinho também. Gente. Quanto mais chama da memória, mas merda vem.

Marina e a MK falam para um público. Há anos. E gravar um clipe onde um homem é simplesmente perdoado depois de esculhambar a vida de uma mulher, num momento de PANDEMIA, onde casos de violência doméstica cresceram absurdamente, é

Um EQUÍVOCO?

Claro que não.

Eles estão alinhadíssimos com Damares. Mais que alinhados, eles sustentam os meios de comunicação que perpetuam o silêncio das irmãs que falamos lá trás, das comunidades. Esse “erro” foi caso pensado. E Cassiane sabia. Viu. Marina chamou na responsa. Mas foi TODO MUNDO APROVANDO. Tá na cara que a mensagem do vídeo era pra afrontar movimentos de mulheres que denunciam, que levam pra polícia, justiça. Que peitam. Porque essa ala conservadora da igreja evangélica ODEIA O MOVIMENTO FEMINISTA. Só depois de uma burduada de 40 mil pessoas queimando Cassiane, eles decidiram mudar o vídeo com um pedido de desculpas que no meio, quase despercebido, dizia:

“por não ter sido compreendido por ALGUNS”

O vídeo foi ótimo. ALGUNS que não entenderam. Não entenderam como o poder de Deus atua na vida de uma mulher de oração capaz de fazer seu marido se arrepender e mudar seu caminho. Você sabe que eles mudaram o vídeo, mas continuam acreditando nisso, certo?

Se não sabe, tamo aqui pra informar. Zero coisas mudaram. A mulher fica literalmente ao Deus dará.


Sem falar que crente se fecha quando se sente perseguido. E por se sentir perseguido, por causa do conceito de "cristofobia" inventado por Malafaia, que muitas crentes morrem apanhando, mas não ouvem movimentos. E cabe aos movimentos entender mais e mais essas pessoas, que estão abandonadas pelo Estado.

Bater na Cassiane não resolve. Bater no Arolde, sim. Acionar o Grupo MK, fazer com que percam muito dinheiro, que esse dinheiro seja investido em programas de apoios à vítimas. Fazer obrigatórias campanhas contra violência doméstica DENTRO das igrejas. E digo mais: não mexe em nada na laicidade. Até porque, se eles vem de lá pra cá querer governar um país, é justo que o Estado entre lá dizendo que vai prender quem bateu. Perderam o direito de reclamar desde o dia que se associaram ao Estado.

Os grupos de comunicação evangélicos seguem, ricos, com poder e continuam mantendo milhões de mulheres presas dentro da primeira versão do vídeo.

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