amor é decisão

Atualizado: Jun 29

No banheiro da minha casa tem um quadrinho pendurado, e nele está escrito:

Dolce Farniente.

Fiquei olhando pra ele hoje. Uma expressão que minha companheira leu num filme, e mais tarde comprou o quadro. É italiano. Significa algo como: 'o prazer de não fazer nada'. Manjo zero de italiano, mas de fazer nada, é nós.


Daí que hoje fomos tomar café do outro lado da cidade, e chovia. E eu, quando chove, e antes das 9 da manhã de um sábado preciso estar de pé, fico melancólico.


Quem nunca.

Minha companheira faz aniversário daqui uns dias.


Antes dela, eu não sabia viver. Achava que o amor era uma coisa relacionada com sentimentos superficiais. Antes dela, nunca tinha comido macaron. Saca? Biscoito goiabinha colorido de francês. Nunca tinha ido ao Olympe, nunca tinha usado uma gravata de pura seda, nunca tive cachorros, nunca me permiti prazeres como tomar um vinho, e aprender a escolher um vinho, quando dá pra comprar.

Nunca me senti entregue a uma pessoa, desse jeito. Capaz de ir lavar as louças, sem ninguém precisar mandar. Veja a gravidade disso, jovem.


Fato é que venho de um processo familiar muito complexo. Como eu, milhares de pessoas vindas do subúrbio e periferia. Pais ausentes, famílias desfeitas, amores exterminados.

Sempre quis uma família minha. Nunca tive forças.

Estar casado não é um clipe romântico. Tem muito mais a ver com frustrações e castrações, rompimentos e reconciliações diárias.


Eu não sabia, mas isso é o processo. O processo de uma vida comum é o mais importante. Acordar, revisar-se, buscar melhorar as respostas, ver o outro se esforçar por isso. Mudar. Não esperar que o outro mude, mas você mesmo, mudar.

E olhar nos olhos da pessoa, e ver aquele mesmo brilho que viu anos atrás. E abraçar a pessoa, sentir o mesmo sentimento de lugar. De estar ali.


Essa semana, saímos pra zona oeste, pra trabalhar. E ela decidiu que ia dirigir uma Kombi na volta, que seria a forma de concluir nosso trabalho, e a Kombi foi cedida por uma amiga nossa da Universidade da Correria.

Entramos na Kombi. Uma marcha, outra, nada. Me lembrou a primeira vez que entramos no carro que compramos, logo depois que saímos de Cascadura, deixando pra trás uma vida difícil pra caramba. E eu tive medo que ela batesse o carro. Mas eu fiquei com ela. Se acontecesse algo, seria com a gente.


Amor é decisão.

Você se decide pela pessoa. Ou não. Não importando muito se ela tem defeitos que você não entende. Se tiver respeito e diálogo, tu se decide, e vai. Casais que estão 25 anos juntos, estão porque decidiram ficar juntos. Sem mistério.

Vivi muita aventura com minha companheira, o que me fez ser escritor. Professor. Estar aqui com vocês.

Todos os dias entro numa Kombi nova com ela. Ela propõe a aventura, e eu vou junto. Porque eu também proponho aventuras que ela topa.

Ela veio morar no Rio, e dormimos mais de um ano num sofá-cama duro de morrer.


Casem.


Parem de ouvir as pessoas modernas que dizem que casamento é peso, é coisa de religioso, é coisa de gente antiquada. Antiquado é você agir pelo que os outros pensam.


Morem com alguém. Entrem em Kombis. Percam coisas. Orgulho, certezas. Talvez você não saiba quem você é ao certo, até se envolver com o outro. Verão coisas de si mesmos que não gostariam de ter visto. Mas estarão livres de um discurso ultra-individualista que tem pautado a sociedade nos últimos anos, me, me, me, me. O império do eu. Meu império não é meu. Tem uma mulher, duas cachorras, mil dúvidas, mil tristezas, cem mil alegrias.

Vou morrer um dia. Não vou levar essas coisas, lembranças e amor. Queria tentar eternizar isso aqui, explicando pra vocês como amar é uma aventura, e como as músicas deprê de amor de Chico Buarque são experiências DELE, de uma classe média que não quer amar até o talo, mas só até o último gole de whisky. Critico classe média até nisso. Sangue de Jesus.

Amem. Vocês vão morrer. É difícil, e a gente erra muito. Mergulhem no outro. Vai dar merda. Muitas vezes. Mas não há muito o que preservar. Não sairemos daqui vivos. Mas podemos sair deixando saudades.

Preciso parar de escrever, porque tá tendo fogos pra caralho, que hoje é Dia de Jorge, e minhas cachorras tão aqui se jogando em cima de mim.


Ogunhê.

Obrigado, Tati, por ter registrado em foto.

(Texto publicado no Dia do Senhor São Jorge e Ogum, 23 de abril de 2017, aqui: https://www.facebook.com/DinhoEscritor/photos/a.370885493122253/618178691726264/?type=3&theater )

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