Ameaças

Hoje pela manhã, recebi a notícia que diversas mulheres negras e trans, políticas, em vários cargos públicos em instâncias diferentes, receberam ameaças de morte, vindas de uma mesma fonte, já conhecida de longa data por alguns, o codinome Ricardo Wagner.

Esse grupo que envia essas mensagens - é um grupo - é investigado por Delegacias de Crimes de Informática há 7 anos. Ameaçaram e perseguem até hoje Lola Aronovich, mas também Jean Wyllys e a mim, desde 2017.



A primeira ameaça que recebi deste grupo de chans (fóruns onde são publicadas mensagens antissemitas, racistas, xenófobas e sexistas), foi para que uma pessoa me executasse na FLIP de 2017, por 40 mi reais.

Depois, muitas outras ameaças, alcançando gente do meu convívio. A última veio este ano, e incluiu o embaixador de Portugal no Brasil. Numa mesma ameaça, incluiram ele e a mim. Ameaçaram explodir a embaixada, e matar o embaixador português, caso ele me desse asilo político.

A notícia chegou em Portugal. Mas diferente da polícia brasileira, que não tem aparato ou colaboração do Estado para investigar, a União Europeia tem.

Fui chamado a Polícia Judiciária, a pedido da Procuradoria da República de Portugal, para prestar depoimento. Horas de depoimentos e por fim, estou arrolado num processo do qual também faz parte o embaixador de Portugal.

Como se trata de um membro de corpo consular, de país-membro da União Europeia, o Núcleo Anti-Terrorismo da União Europeia se fez ciente. Afinal, ameaçar explodir embaixada de um estado-membro, mesmo que seja bravata, pode acontecer no Brasil, onde tudo perdeu o controle, e hoje, por exemplo, choveu policial militar e deputado militar me ameaçando de morte.

Mas na Europa, eles acionam mecanismos de investigação que superam os nossos. Estamos falando de Alemanha e França, que empreendem, com outros membros do bloco, esforços para localizar terroristas ou os que propagam ameaças. E isso pra eles é coisa levada muito à sério.

De modo que, não apenas representar no Ministério Público, mas gostaria de dizer que todas as mulheres negras ameaçadas hoje devem enviar essas ameaças para o Gabinete do Nucleo Anti-Terrorista da União Europeia, e reforçar os movimentos de investigação, que agora, correm independente da polícia brasileira.

A extrema-direita brasileira, que odeia preto, odeia mulher negra, tem apenas um único trabalho: isolar e prejudicar o país. Somos vistos como um país de assassinos. Graças aos Bolsonaro, aos milicianos e aos militares com fortes tendências autoritárias e corruptas - quase todos.

Um deles está preso. Mas há de se prender muitos outros ainda. As ameaças são sempre nos mesmos termos. Macaco, morte por decapitação, tiro, morte de familiares. Tudo isso eu passei, outras pessoas vem passando e hoje, essas mulheres.

Um dos motivos que levaram Jean e eu a sairmos do país foi exatamente este mesmo grupo. E ainda assim, muitos da própria esquerda não deram crédito. Tá aí.

Estamos realmente em tempos difíceis.

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