É tão difícil encontrar uma ROLA?


Eu costumo dizer que vocês, que não são da igreja, só descobriram quem é Malafaia agora, a gente, que é da igreja, sabe quem é esse lixo há uns 30 anos. E a gente luta contra ele, antes mesmo de existir PSOL. Então são duas coisas aí. A primeira, que vocês não fazem ideia do quanto esse homem já causou problemas e tentamos frear, e a segunda, vocês odeiam evangélicos. Assumam. Vocês odeiam. Preferem aceitar crenças tão escrotas quanto, mas não aceitam uma pessoa ser da igreja. Ela pode chegar em você, falar que é Touro com ascendente em Aquário, Pilantra com ascendente em Indecisa, Corote com ascendente em Cocaína,

pode acreditar em guru chamado Janderson, pode acreditar em coach, pode ser bruxa, fazer ritual da lua, da terra, de palo santo, pode fazer o caralho, mas crente, não. Quando você se refere ao mal da religião, é com o crente. Esquece que Candomblé é religião. Que Budismo é, EMBORA NEGUE. Até Flamengo é religião pra alguns. Pra outros, Vasco.

Pode até ser ateu, mas religiosamente ateu. Ou religiosamente vegano. Idolatrando bicho, o que não é uma novidade, egípcios faziam, indianos fazem, até judeus fizeram, e tomaram uma chibatada do Deus deles.

Ou pra pagar de resolvido, faz terapia. Lê Freud. Jung e Lacan. O chã-patinho-lagarto da psicanálise.

Mas como ouvi essa semana: Psicanálise é igreja de rico. Então temos, de um lado, um pastor tremendamente canalha, e de outro, uma sociedade preconceituosa e ignorante sobre a tradição evangélica. Ah, mas não me interessa, porque Malafaia xingou o Jean Wyllys por mil anos. Eu lembro. E lembro inclusive que foi um erro do Jean, naquele primeiro momento, colocar toda a igreja na conta do Malafa. Mas fazer o quê, o cara era atacado de manhã, de tarde, de noite e de madrugada, numa década dos anos 2000 em que ninguém sabia porra nenhuma de porra nenhuma.

Mas aqueles momentos foram decisivos. Quer dizer, evangélico já vinha fazendo merda de antes. E não me refiro ao Macedo e o chute na santa, mas ao apoio incondicional que as igrejas presbiteriana e batista deram a ditadura. A igreja evangélica perdeu a linha geral mesmo foi na década de 1990, quando a indústria fonográfica gospel bombou, e através da música e da cultura de massa, o Jesus vacilador chegou a milhares de jovens - hoje cidadãos de bem, pais e mães da família tradicional brasileira. E também tem essa coisa da cultura de massa. Vocês ouviam Transamérica. A gente ouvia Melodia, 93 FM, e uma porrada de rádio gospel, era um universo paralelo, intocável, a primeira bolha do zap.

Os evangélicos - neopentecostais - cresceram a partir desta década, de 1990.

Isso tem a ver com a retomada da democracia, e o fim da chamada 'década perdida', de 1980, que marcou o Brasil pela hiperinflação, crises econômicas e o desgaste da última geração de presidentes militares. O Brasil recomeçava, na década de 90, uma nova página na democracia, e de cara o impeachment foi o ápice da participação popular inspirada no '’Diretas Já", de 1984. A cultura brasileira, sobretudo a musical, se expande, e os meios de produção fonográficas avançam, com a chegada do CD, nova mídia que substituiria os LPs. Muitas fábricas de CDs prestavam serviço para grandes gravadoras, e negociavam valores mais acessíveis para manter o fluxo funcionando, e aí entravam grupos de pagode iniciantes, artistas pequenos e, principalmente, evangélicos. A popularização do CD foi fundamental para a disseminação da mensagem neopentecostal, tanto quanto o VHS. Foi em cima desses dois principais produtos que a igreja evangélica disseminou mensagens, com cadeia produtiva nas mãos, com custos mais baixos, já que produzir LPs e discos de vinil era muito mais caro. E é em cima disso que Estevam Hernandes, Silas Malafaia e pastores neopentecostais de comunidades evangélicas ganhavam dinheiro, alé, claro, do dízimo. Malafaia, naquela década, criou a Associação Vitória em Cristo. A Associação, sem fins lucrativos, seria um dos braços empresariais de Malafaia, por onde passava dinheiro, de doação e de venda de VHS ou CDs, uma mistura de entradas, que no fim bancava seu programa matinal na Band, retroalimentava sua editora, pagava seus funcionários e lhe dava uma estrutura de comunicação,

O QUE SERIA O PRIMEIRO CAPITAL de Malafaia, alcançar MILHÕES de pessoas nas periferias e subúrbios, e esse capital ele usará no fim da década para PRESSIONAR POLÍTICOS, CAMPANHAS E GOVERNOS. Porque ele se vende, em 1999, como O REPRESENTANTE DOS EVANGÉLICOS. O que era, certamente, mentira.

O evangelicalismo é vertente do protestantismo. E dessa forma, não há um Papa, um representante, um dono. É um ecossistema livre. E mesmo que você ganhe dinheiro ou tenha poder, como Macedo, não significa que você represente os evangélicos. Que pra você, ainda hoje, são a mesma coisa que protestantes. Mas outra hora vamos falar disso. Por agora, observe que Malafaia e Hernandes, da Renascer em Cristo, criaram impérios regionais que, a partir da fonografia e audiovisual para o público gospel (termo disseminado pelo próprio Hernandes, que cria não apenas produtos, mas festivais como o S.O.S Vida, onde os artistas da sua gravadora Renascer tocavam para os jovens em estilos musicais proibidos pelos protestantes), e também roupas, acessórios, BÍBLIAS em traduções e interepretações para cada público: pro jovem, adolescente, mulher, idoso, estudante, pastor, tudo. Bíblia virou produto. Jesus virou produto. Onde escrevesse "Jesus" dava pra ganhar dinheiro.

O Real de Fernando Henrique, e mesmo com taxas de desemprego altíssimas, a economia recuperava, porque ficava pra trás a década de 1980, e se tinha esperança no futuro. Sem dúvida o Tetra fez o Brasil respirar e olhar pra frente. O boom dos pagodeiros que usavam saxofone, Gugu e Faustão disputando audiência, muitas bundas, É o Tchan, todo mundo na década de 90 gravou um CD. TODO MUNDO. Eu tive um amigo que morava no morro e tinha um estúdio no quarto onde gravava CDs pra irmãs da igreja que queriam iniciar na carreira. Nisso, a fome de Malafaia cresceu. Ele tentou várias vezes uma aliança com Macedo, que corria num mundo à parte, fazendo sessão de descarrego e, como é um ser humano doente e maldito, com dificuldades de se relacionar com o humano, fez da IURD uma seita distinta, e disse QUE NÃO QUERIA SER ASSOCIADO A EVANGÉLICOS. Macedo comprava tempo nas TVs pequenas, Malafaia também. Hernandes foi um dos primeiros a criar uma REDE DE COMUNICAÇÃO com rádio e através de uma repetidora, canal de TV em pequenas cidades. Veio Macedo e comprou a Record, no Rio. E Malafaia quis entrar na Globo, não conseguiu. Quis parceria com Macedo, não conseguiu. Seguiu comprando tempo na Band e largando o aço se tornando cada vez mais violento e vendedor de seus produtos. Vendia mesmo, na cara dura, depois de orar. Fazia a pessoa se endividar.

Mexia com grana. Grana alta, tinha relógio dourado, bigodão. Parecia um traficante cafona véio de Sinaloa. Só faltava o sapato bicolor. Mas outros pastores tentaram conseguir espaço. A Adsat, canal adventista, existe até hoje, como Novo Tempo. As concessões religiosas surgiram no governo FHC, e aí as católicas também entraram. TV Aparecida, Canção Nova. Padre Marcelo Rossi vendendo CD pra caralho, cantando no Gugu, fazendo programa, os evangélicos e os "carismáticos" bebiam da mesma fonte. Caio Fabio montou sua estrutura. O reverendo Caio Fabio tinha uma história extensa, naquele momento ele viajava por todo país fazendo conferências, gravando vídeos, programas, publicando livros. Igual Malafaia. Só que não. Caio fundou e se tornou presidente da Associação Evangélica Brasileira, uma tentativa de organizar o PUTEIRO que a igreja havia se tornado. Tinha que voltar pra ética, tinha que ter um organismo que pelo menos recomendasse pisar no freio. Caio tentou. Na minha leitura, ele foi sabotado por forças, hoje, nem tão ocultas assim. Mas é ele quem também abre caminhos para os hoje progressistas. Os críticos da igreja. Nós todos devemos muito ao Caio. Em 2000, o IBGE ainda não classificava os evangélicos com clareza. Veja bem: ano 2000.

A falta de interesse de um Brasil católico e, quando muito, interessado num sincretismo exotizante das religiões de matriz africana, esse Brasil Caetano, malandro, gostoso, peito de fora, moreno, que ao mesmo tempo hostilizava qualquer religião vinda dos americanos (opa, ó nós aqui), e criticava ao mesmo tempo a 'América Católica', deixando ao espectador apenas um caminho, o do ateísmo ou da psicanálise para ser considerado evoluído, isso tudo fez com que Malafaia, no vácuo de informações sobre o mundo evangélico, se vendesse como porta-voz do grupo, durante toda década, influenciando as eleições de 2006, 2010, 2014, e todas as estaduais e municipais, apoiando pastores, preparando pastores para se candidatar, até o irmão de Malafaia entrou pra política. O poder.

O cara ganhou dinheiro na década de 90, e com a voz robusta e abusada, agora queria o poder. E disse, "profetizou" que um dia ia abençoar o presidente. Se cumpriu, em janeiro de 2018.

As brigas de Malafaia com Jean estavam apenas no meio de um projeto de poder em curso. Malafaia não tem exatamente um problema com pessoas trans, ou gays. Ele tem. Mas o que ele tem mesmo, é um projeto. E Malafaia, tanto quanto Crivella, "empreendedores da fé" da década de 90, sabem que o negócio é estar nas manchetes. Malafaia falou que era pra boicotar a Natura. A Natura teve alta na Bolsa. Ele pouco se importa com Thammy. Ele só queria ser lembrado. Lembrado como uma autoridade, ainda viva, alguém com poder, com representatividade, capaz de interferir nas notícias de um país por um dia. Os holofotes. Malafaia agora tem canal no Youtube, e-book, DVD, grupos de Whatsapp, videoconferência, planos de assinatura para fiéis, e dízimo na sua igreja na Penha. Muito dízimo-dinheiro novo, seed money, pra ele continuar a obra de Deus. E não interessa a Malafaia que vozes como eu existam. Porque isso aqui não é nem um décimo de todas as histórias de imundície que ele promoveu durante esses anos. E visto por quem é de dentro e viveu o tempo na História. O Bolsonarismo veio do mesmo lugar. No espaço-tempo da década perdida, os anos 80 que voltaram pra nos decepcionar. De Bolsonaro, a ex-roqueiros, antes subversivos, hoje reacionários. Justo agora, que voltamos para uma outra década perdida. Que, segundo o El País, vai ceifar a pouca riqueza de milhares de famílias, e as oportunidades de trabalho para jovens entre 24 a 35 anos. Não tem cenário pior que o nosso. A família evangélica é sacralizada, dentro do espectro heteronormativo, mas todos adúlteros. Num tempo em que pastora Flordelis fazia suruba em sala privada, e Marco Pereira tem 'saudade do teu rabo' e um jovem evangélico e bolsonarista praticava pedofilia e estupro com adolescentes. Nesse cenário, onde o ódio e arma se encontram com o louvor, Malafaia é um dos Césares.

Malafaia vai implodir. Nenhum poder dura pra sempre. Mas não será a esquerda alecrim dourado que vai derrubar. Outras articulações, com atores outros, com novas formas de se reconectar com o povo que, segundo Mano Brown, a esquerda perdeu. Não só ele, eu também digo, e sou hostilizado por PSOL, feministas brancas e todos os intelectuais de buteco dito socialistas. Por agora, Malafaia conseguiu o que queria. Olho, com tristeza, e com raiva. Mas é como disse Jesus, ao saber que ia ser morto:

"É chegada vossa hora,

e o poder das Trevas."

Estamos no Getsemani. No meio da madrugada. Suando sangue. Sozinhos. E sabemos que vamos morrer.

Se restar Brasil,

ele nunca mais será o mesmo.

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